Acessório indispensável no meu cotidiano, devo assumir.
Funciona como uma máscara quando quero, ou até quando devo, me esconder não só dos vigorosos raios solares, mas também do mundo lá fora. Consigo me refugiar atrás de uma armação posta sobre meu nariz e orelhas que a princípio e para muitos, tem o mero encargo de proteger-nos dos danos que o astro ardente pode nos causar, mas há também quem diga que os olhos são as janelas para a alma e eu às vezes prefiro deixá-las fechadas, só por segurança. É como um refúgio, o que é difícil de assumir, já que sou vista pela grande maioria como arrogante e estúpida, o que pra estes mesmos é sinônimo de insensibilidade, é também o que faz com que não se importem com meus melindres, e eu na verdade, prefiro que nem o faça!
De qualquer forma, é indescritível a sensação de poder observar com absoluta discrição todos os transeuntes e formular estórias e comentários cômicos em cerca de minutos no vazio da imaginação. Bem, e o que torna tudo mais engraçado é o fato de as pessoas acharem que, por estar coberta por lentes escuras, não as consigo enxergar com os olhos me fitando incessantemente de cima abaixo, fazendo sobre mim uma crítica com certeza tão engraçada quanto a que eu faço dela.
São inúmeros modelos, diversas cores, vários tamanhos, aspectos não muito importantes mas que me divirto escolhendo de acordo com meu humor. Me sinto nua quando não estou acompanhada do meu fiel escudeiro, me sinto vulnerável aos olhares perversos e cheios de pré-conceitos refletidos em minha direção, mas quando ponho uma de minhas "máscaras" de certa forma me protejo e é engraçado ver na feição de cada um não o pré-conceito, mas sim uma dúvida engraçada do que está por trás do meu escudo.
Minha intenção não é esconder-me por trás de grandes armações, é interpretar meu humor junto a um grande amigo inanimado, às vezes elevar minha auto-estima "naqueles" dias ou simplesmente rir dos mortais que encontro no caminho de casa quando me visto de algo mais... Ousado.
Ele acordava e logo checava o celular. Não, ele não queria saber quantas horas eram, isso ele já sabia, ele queria saber se ela não havia mandado uma mensagem sequer ou telefonado no meio da noite. Antes de ir ao trabalho, a caixa de correio... Vazia, apenas algumas contas à pagar, mas nada que ela enviara. No trabalho, checava o e-mail, na hora do almoço o celular sempre a mão, mas nada, ela não ligava há semanas, nem mesmo mandava mensagens, nem uma correspondência, nada.
Faltavam 8 dias pro aniversário dela, ele queria ligar, não sabia se devia; ele queria enviar um presente, ele na verdade, só queria deixar claro que havia se lembrado, ele sempre se lembrava.
Por fim, decidira tentar não se preocupar mais, se ela não havia ligado é porque já não se lembrava ou nem importava, mas de qualquer forma as lembranças estavam acesas em sua mente e sempre que se encontrava ocioso elas retomavam junto às lágrimas, mas já não havia nada a fazer e ele havia decidido não sacrificar seu coração, mesmo que talvez fosse se arrepender mais tarde.
Então foi assim, ou pelo menos tentou que fosse por seis longos dias e já no sétimo, na iminência de ligar, a campainha tocou e o barulho pareceu explodir sua cabeça, não esperava ninguém embora desejasse alguém. Ao abrir a porta lentamente sentiu o coração batendo com mais força, mais intensidade e ao erguer a cabeça o brilho nos olhos desapareceu, era engano, o entregador de pizzas e ele não havia pedido pizza alguma, mas naquele instante resolveu pedir, aceitou a pizza como sendo sua, pagou pela mesma e em frente à tv, saboreou 8 suculentos pedaços que por alguns minutos conseguiram distraí-lo daquela atmosfera obscura na qual acabara dormindo debruçado em um prato lambuzado de molho ao som de uma comédia nacional meia-boca que era televisionada durante a madrugada.
Antes de ser acordado pelo despertador, a campainha tocou novamente pela manhã, era sábado, aniversário dela e a ressaca moral pesava após uma pizza inteira e 2 litros de refrigerante. Foi rumo à porta com o rosto sujo e os olhos entreabertos arrastando uma pantufa velha pelo chão sujo da casa de um jovem de 26 anos. Abriu a porta sem muita preocupação e os olhos com certa dificuldade, mas quando se deu conta de quem estava perante a porta, a grande dificuldade foi em se manter de pé. Ela largou as malas no chão, pulou nos braços ainda fracos dele, caíram no chão e ele conseguiu alguma energia pra puxar um forte riso e dá-la um forte abraço. Ela começou a se explicar e ele a interrompeu, agora ele não precisava de palavras, fossem estas de consolo, perdão ou explicação, o que ele tanto queria, agora já possuía. Ao olhá-la na face os seus olhos brilhavam e a boca alargava em um enorme sorriso, suas mãos chacoalhavam e algumas lágrimas fugiam-no dos olhos.
Já ela, se culpava, e envergonhada pedia pra que as portas do coração dele se fechassem para sempre, para que então ela nunca mais pudesse sair.