Não consigo imaginar sequer um cidadão que possa ser feliz em um lugar assim, a não ser pela menina do segundo andar. À primeira vista, descuidada, nada de especial no segundo andar, nem no primeiro, nem mesmo no terceiro. No entanto, a menina de olhos coloridos já havia contemplado toda a paleta de cores que só um pôr do sol sabe oferecer, portanto sabia olhar além daquele cinza que pintava sem capricho a monotonia.
A janela da sala emoldurava um quadro que ela nem sequer teve o trabalho de nomear, mas eu o chamaria carinhosamente de "Vitória": coincidentemente, o nome de uma das mulheres que mais havia marcado a sua vida. Um quadro vivo, singular e uma visão privilegiada! Aquela fagulha de esperança ordenava a companhia de um vinho, mesmo um desses mais baratos, que por sorte - ou providência divina - eram os preferidos da menina do segundo andar.
Tinha adotado, de forma bastante egoísta e com toda a eloquência de um pronome possessivo, aquela obra natural e irreverente como sua. Uma árvore, que embora pequena, havia tripudiado sobre um poste. Tivera a sorte de encontrá-la e o impulso de possuí-la. Não se faziam necessárias placas, cercas ou demarcações, apenas repousava todos os dias seus olhos coloridos sobre Vitória e com gesto inevitavelmente espontâneo fez de sua obra também o seu céu:

A delicadeza e sensibilidade desse texto traduzem com exatidão meus sentimentos. Obrigado por isso, talvez nao faça tanto sentido pra maioria das pessoas, mas pra mim não teria como ser mais extasiante.
ResponderExcluirAss: menina do segundo andar.