Uma de minhas amigas adora exaltar meu modo desastrado de (tentar) ensinar receitas, porque eu não tenho muita habilidade - nem paciência - pra anotar medidas, tempo ou proporções. Eu sou mais da intuição, da observação, do toque. Deve ser meu ascendente em câncer, que é fascinado pelo sentir.
Por coincidência, hoje é aniversário dessa amiga, Raquel.
Por sorte, hoje consegui fazer a primeira receita de quibe que me deixou satisfeita de verdade! Bem, se me permitem, vou dar um breque no causo pra falar um pouco sobre meus impasses ao fazer quibe, a começar pela hidratação do trigo. Todas as receitas que leio, quando vejo a quantidade de água em relação a quantidade de trigo... Aquilo nunca parece fazer sentido pra mim! O sal eu nunca acerto. A textura? Minha maior frustração! Nunca tinha conseguido deixá-lo consistente o bastante pra enrolar, por isso eu era obrigada a sempre fazer quibe de forma, assado. Aliás, assar... tá aí um trem que me desestabiliza é ler que o prato vai ao forno. Nesse momento sinto que já perdi todo o controle sobre a criação do prato. Agora a responsabilidade de fazer dar certo cabe a quem? Sim, ao forno! A mim, somente resta rezar e tentar dialogar com o dito sujeito dotado de tanta responsabilidade. E vou te ser sincera, quase nunca nossas conversar acabam bem. Acho que ainda não estabelecemos um dialeto comum aos dois. Ora o quibe sai meio cru, úmido demais; noutro momento é só sequidão.
Mas hoje... Ah! Hoje foi diferente! Não busquei receita! Olhei pra tudo que eu tinha e me lembrei de uma receita que aprendi com uma amiga, mas que nem de longe sei fazer de cor, mas fiz mesmo assim, como me deu na telha. Coloquei água até me parecer suficientemente hidratado. Piquei toda a cebolinha que eu tinha e raspei gengibre até quando eu quis. Catei umas folhas de hortelã fresquinho e coloquei lá no meio de tudo. Cortei um tanto de cebola e amassei a abóbora, que aqui no nordeste chamam "jerimum". Fui misturando tudo de pouquinho em pouquinho e fui acertando o sal, tocando, sentindo, experimentando. Na hora de enrolar os quibes, a textura estava ideal!
Naquele instante me veio uma memória deliciosa de quando eu tinha de 5 pra 6 anos de idade. Os vitrais antigos da casa da minha avó eram coloridos e faziam sombras lindas pela casa. Eu adorava o azulejo floral da cozinha amarronzada. Vó Dair estava ali, debruçada sobre uma bacia, enrolando quibe na cozinha. Eu queria ajudá-la, então arrastei a cadeira pesada de madeira pra subir e alcançar a mesa. Atenta eu tentava repetir o formato do quibe como a minha avó fazia com agilidade e maestria, mas já nos meus poucos anos de vida o excesso de exigência comigo mesma já me deixava frustrada e impaciente bem rapidinho, daí me lembro que logo desisti da tarefa e fui brincar por outras bandas.
Hoje, enrolando meus quibes, eu senti toda a energia alegre da minha avó na cozinha, sempre paciente em me ensinar qualquer coisa que fosse. Me emocionei! Era como se ela estivesse ali comigo - e como eu gostaria que ela estivesse lá pra ver e experimentar meu quibe, que diferente do dela, não era de carne, mas de abóbora... Consigo ver até a careta que ela faria ao ver o quibe diferente, os olhos arregalados e a boca mansinha falando "Ó! Que interessante!"
Dentre tantas coisas, esfirra, bolinho de chuva, cajuzinho, quibe e doce de
maçã são comidas que sempre vão me lembrar vovó e as partilhas à mesa em
família. Essa lembrança e as sensações que vieram com ela me trouxeram
um pouco mais de segurança pra seguir instruindo minhas mãos a partir da
intuição, porque o amor, eu sei, é a mais sublime das técnicas
culinárias.
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